Cinofilia filantrópica

Comecei com Boxer em 1987 exatamente, com 17 anos de idade. A cinofilia entrou na minha vida através da raça Basset Hound, quando vi um exemplar da raça nas mãos do meu tio paterno, em uma exposição de cinofilia na Praça Rebouças, em Santos/SP. De lá pra cá sempre me vi com cães ao me redor. Sou um apaixonado pela cinofilia. Hoje, ainda aprimoro e seleciono a raça Boxer, e minha nova paixão a raça Terrier Brasileiro, o cãozinho mais apaixonante da nação!

A Cinofilia é custosa e todos os insumos, a começar por ração de qualidade, tem imposto sobretaxado e pesa muito no bolso do cinófilo, por isso, não é possível fazer cinofilia filantrópica.

Todo o esforço de um cinófilo é voltado para a construção do exemplar ideal da raça que mais combina com a gente, e o cinófilo busca esse tipo ideal no Padrão Oficial, que é redigido pelo país de origem da raça. O entendimento e a interpretação do cinófilo é o resultado que será exposto na criação, na aparência dos cães, e inclusive por isso, uma criação de seleção de raça se torna custosa pois agrega valor intelectual, tempo de estudo, investimento em genética e genealogia.

As despesas de um criador que faz cinofilia vai além do dinheiro gasto com com água, luz, manutenção predial, custas trabalhistas e tarifas de kennel clube. Normalmente, o cinófilo busca o melhor em ração balanceada (o que não é barato, já que o mercado de ração é sobretaxado pelo fisco), e também inclui medicamentos contra verminoses, carrapaticidas, acompanhamento médico-veterinário, importação de microchips (dispositivo intradérmico que carrega uma sequência numérica para identificação do indivíduo canino), aquisição de vacinas éticas de cepas virais importadas, pois são de melhor eficácia que as cepas de laboratórios nacionais, pagamento de honorários de treinador/adestrador, propaganda em revistas especializadas, etc.

O cinófilo também investe nas exposições de cinofilia, que para o  criador de seleção rácica, é uma excelente vitrine. A exposição de cinofilia é a melhor oportunidade para que o criador possa mostrar para outros cinófilos e ao público interessado, o que está produzindo em qualidade e tipo rácico na sua criação. Os kenneis clubes, nome genérico que damos à entidade de cinofilia  que associa um cinófilo dando a ele uma credencial para emitir o pedigree de seus cães através do registro na entidade de uma marca, um nome de canil, que será o sobrenome de todos os cachorros registrados pelo cinófilo (pedigrees emitidos); são quem promovem esse tipo de evento e sempre coloca um expert em cinofilia para que faça a avaliação do exemplar canino inscrito e o qualifique, dando uma nota que somada a outras avaliações de outros experts, dão ao cão o título de campeão de cinofilia.

O título de campeão de cinofilia é um atestado certificado de qualidade rácica, tipo rácico e padrão. Um campeão tem muito mais probabilidade de transmitir qualidades rácicas previstas no Padrão Oficial, aos seus descendentes, que qualquer outro exemplar. O criador de seleção de raça é quem constrói uma linhagem e fixa um tipo rácico no contexto cinológico, a genealogia é fundamental, pois sem a análise dos ancestrais no pedigree, fica improvável o trabalho de cinofilia e aprimoramento rácico. O cinófilo criador avalia essas possibilidades no pedigree do cão e através da leitura e do conhecimento dos cães que compõe a linhagem, determina quais os melhores parceiros de acasalamento e qual linhagem deve ser utilizada para que nasça promissores exemplares candidatos a títulos de campeão de cinofilia.

O pedigree de um cão é muito mais que somente um documento, é um espelho da genética que o exemplar carrega, a combinação entre tipos (indivíduos), que acaba resultando no exemplar perto do ideal, no ponto de vista do padrão oficial da raça e do criador.

Portanto, diante de tudo que se apresenta para que o cinófilo possa desenvolver seu hobby, é quase que impossível que sejam feitas doações de filhotes por um criador cinófilo, já que acima dos custos há o envolvimento intelectual e o comprometimento pessoal do criador com a sua criação. são noites acordados, são viagens, são mais um filhote que achamos que devemos segurar ou um velhinho que não vamos abandonar, por que por si, esse cão conta muita história sobre o trabalho do criador e da criação da raça no contexto cinológico; assim, o trabalho de um criador de cinofilia se difere em muito daquele criador que apenas acasala macho com fêmea da mesma raça para nascerem cachorrinhos e vende, muitas vezes sem pedigree ou expede pedigree somente para quem assim solicitou.

A criação comercial é válida, não sou contra. Mas sou contra a comparação do meu trabalho com quem não tem nenhum trabalho similar ao meu. Não sou comparado a criador vendedor de filhotes, pois vendo filhotes que não vou segurar para sequenciar a linhagem que construo das raças que crio. Aprimoro raças, crio linhagens, e não me comparo a nenhum vendedor de cachorros que pouco ou nada fazem em busca da qualidade racial, da cinofilia, do manejo, ou mesmo por seus próprios exemplares. Não sou um filantropo da cinofilia, e aquele que não reconhece a minha dedicação e não pode pagar pelo custo de um filhote, não tem como arcar com as despesas do dia a dia da manutenção de um cão.